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LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO POLICIAL MILITAR
MÓDULO 1
AULA 1 - INTRODUÇÃO
Antes de abordar os temas desta disciplina, é fundamental apresentarmos uma
visão geral das relações entre a linguística textual e a produção de textos, tanto
orais quanto escritos. Isso se faz necessário para compreendermos as bases teóricas
que sustentam as perspectivas da comunicação e da construção e estruturação de
textos, uma vez que é por meio dessa vertente da linguística que se concebem as
estruturas da comunicação e da linguagem.
É praticamente impossível tratar as teorias de produção e compreensão textual
sem considerar os princípios da Linguística Textual, pois é por via dela que se vê
oferecer as ferramentas para que entenda como os textos são construídos, como os
sentidos são estabelecidos e como os interlocutores interagem por meio da
linguagem.
A título de exemplo, podemos citar, como pontos que exploram essa relação,
temas fundamentais para que um texto seja tratado como tal, e não como um simples
amontoado de palavras sem sentido, quais sejam, o detalhamento de mecanismos
que garantem a ligação interna das partes de um texto (coesão) e a sua unidade de
sentido (coerência); os fatores como a intencionalidade (a intenção do produtor), a
aceitabilidade (a expectativa do receptor), a situacionalidade (o contexto da
comunicação), a informatividade (o grau de novidade das informações) e a
intertextualidade (relação com outros textos) que abarcam os fatores de
textualidade, cruciais para a construção e recepção de textos eficazes
Além disso, é na linguística textual que residem as categorizações dos gêneros
textuais, ajdando-nos a entender que os textos não são unidades isoladas, mas, sim,
inseridos em formas de comunicações específicos (notícia, e-mail, conto, receita,
etc.), cada um com suas características e finalidades comunicativas; e dentro da
atividade policial estamos e somos ladeados de vários desses gêneros.
Outra questão importante é entender que o texto é um evento comunicativo,
um espaço de interação social no qual o produtor e o receptor constroem sentidos
juntos, levando em conta o contexto e suas intenções, o que, no universo da linguística
rextual, encontramos nominado como Enfoque Sociointeracionista, o que não se
faz necessário mergulhar tão profundamente para entender, já pela nomenclatura, do
que ele trata.
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Compreender e conhecer, portanto, algumas questões desse segmento dos
estudos linguísticos é, sem dúvida, o ponto de partida ideal para quem busca
aprimorar as habilidades de comunicação e produção textual, seja no âmbito
acadêmico, profissional ou pessoal.
Desde o seu aparecimento nos idos de 1960, até hoje, a Linguística Textual
percorreu um longo caminho evolutivo, ampliando e modificando a cada passo seu
universo de preocupações. Em um primeiro momento assumiu uma postura de
inclinação gramatical (análise transfrática), o que reverberou certa inquietude em seus
operadores posto que a essência a que se destinava um texto estava voltada a um
plano secundário ou coadjuvante. Ou seja, a mensagem estava fadada ao segundo
plano em relação à correção da escrita.
Em seus estudos sobre essa vertente, Schmidt (1978, p. 5) ressalta que já em
1968, Hartmann, alemão que figura como um dos fundadores da linguística do texto,
assim se reportou sobre os problemas agregados pela vertente transfrática:
“Se desejarmos praticar e desenvolver a ciência da linguagem em
plenitude e diferenciação adequada a seus objetos, é preciso partir da
real situação objeto no domínio da realidade lingüística. O ponto de
partida de uma fenomenologia do objeto lingüístico localiza-se na
textualidade do sinal lingüístico original”.
Ou seja, o ponto situacional representa a origem da mensagem, sendo o
ponto de partida essencial para qualquer ação comunicativa. É esse ponto que
direciona o fluxo da comunicação, e ele se baseará primária e prioritariamente no
conteúdo que está sendo expresso, seja de forma oral ou escrita, mesmo que a
estrutura do texto apresente falhas.
Seguidamente, essa vertente linguística adotou caracteres pragmático
discursivos para depois se transformar em disciplina com forte tendência sócio
cognitivista, relacionada com o processamento sócio-cognitivo de textos escritos e
falados, ou seja, fenômenos, teorias ou abordagens que reconhecem a
interdependência entre o que pensamos (cognição) e como somos
influenciados pelo ambiente social em que vivemos (social).
Olson (1995, pp. 269 e 270) postula haver a necessidade de quatro fatores que
considera essenciais como condição de existência de uma cultura escrita geral, quais
sejam:
a) O suporte de fixação e retenção dos textos, que poderiam ter como meio
principal para sua materialização o próprio texto escrito com a função de
armazenamento, arquivamento, adicionação, ou até mesmo substituição ou abandono
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de informações quando do surgimento de novos dados que permitam assim a base
para a criação de novos textos;
b) A necessidade de existência de “instituições específicas” para a
condução dos operadores textuais a outras “instituições”, embasando-se
especificamente na importância da existência de outros núcleos de convivência social
específica, como a igreja, a família, o ambiente profissional e, notadamente, a escola,
que desempenha o importante papel formativo, apresentando-nos e fazendo-nos
confiar, além dos outros segmentos dimensionais da educação, à prática da escrita
como elemento identificador de conhecimentos específicos. Isso faz ressaltar que na
sociedade ora vigente, ainda que estejamos perpassados por ferramentas e
implmentos tecnológicos, o indivíduo que não possui o domínio da escrita ou não
consegue ao menos firmar o seu nome, ainda é considerado iletrado, resguardando
se, no entanto, o proposto por Marcuschi (2001, p. 19) ao lembrar que:
[...] deve-se ter imenso cuidado diante da tendência à escolarização
do letramento, que sofre de um mal crônico ao supor que só existe um
letramento. O letramento não é o equivalente à aquisição da escrita.
Existem “letramentos sociais” que surgem e se desenvolvem à
margem da escola, não precisando por isso serem depreciados.
Levando-se em consideração que a o letramento, no campo pedagógico, é a
capacidade de usar a leitura e a escrita em diferentes propósitos e contextos sociais, o
letramento social, que trata Marecuschi (2021), acompanha o contexto dessa capacidade,
regulando, orientando, conduzindo as diversas formas comunicativas sociais.
c)
A produção escrita como fundamento à existência de “instituições”, em
que a abrangência de um texto constitui íntima relação e relevância para com as
instituições e as práticas as quais referenciam, quais sejam: “a religião, a lei,
os negócios, a ciência e a literatura”. Se assim não ocorre, o texto caracterizar-se-á
como limitado no que tange ao sentido e significado cognitivo; e
d) A existência do caráter evolutivo de uma metalinguagem oral, ligada à
“linguagem mental”, classificada por esse estudioso como a característica de maior
relevância, posto que é por via da metalinguagem que se permite aos operadores da
fala e da escrita referenciarem-se e interpretarem outras produções escritas e as suas
características de conteúdos.
É inegável a importância de tais fatores no universo composicional de textos,
posto que se observa, como pretendemos abordar mais adiante, a necessidade de
correlação entre o que, o porquê, para que ou para quem, e, principalmente, como
escrever, uma vez que em todos os itens acima listados e lastreados nos estudos de
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Olson (1995, pp. 270 e 274), revelam-se possibilidades de ocorrências de erros por
vieses diversos, principalmente pela forte tendência em se inferir linhas da oralidade
na escrita.
Não por isso, esse autor postula a mudança ocorrida na própria cultura de como
se passou a observar as alterações de produções linguísticas dos indivíduos depois
da aplicabilidade dos textos, valendo-se, para sedimentar seu posicionamento, das
seguintes teorias:
I) Teoria de nexo entre a “escrita e o pensamento”, como o da modalidade
que confere à linguagem escrita a capacidade de influenciar “as formas e os usos da
língua”, pelo fato de possibilitar uma amostra palpável (perceptível) da língua oral.
Essa representação possibilitou ainda a percepção de diferenças entre os turnos
escritos e falados, resguardando-se as relações de forma, vocabulário e “gêneros”
diversos;
II) Na “teoria do meio”, o linguista em questão chama a atenção para os
aspectos léxicos e sintáticos presentes nas vertentes comunicativas, oral e escrita,
e acrescenta que “escrever é, em essência, um processo mais consciente que falar...
um discurso espontâneo é, geralmente, escrito”;
III) Na vertente teórica das habilidades mentais, postula que as teorias
relacionadas ao meio e à modalidade são transpostas pelas habilidades com suporte
nas atividades de leitura e da escrita. Estas, quando adquiridas, possibilitam inclusive
a identificação da forma materializada das palavras e sons, no que concerne às
atividades faladas e auditivas, como também a possibilidade de identificação particular
de textos, de discursos e suas análises, indo mais além, pois hodiernamente já se tem
como razoável a incorporação na oralidade de conteúdos trazidos pela escrita;
IV) A capacidade de observação e reflexão das características da linguagem,
ou seja, a metalinguagem, constitui fator preponderante e suplantador aos atos da
audição e oralidade, e da escrita, que se constituem como atividades primárias e
secundárias, respectivamente, pa...